O impacto da pandemia de Covid-19 na mortalidade no Brasil

Construímos esta página para propor um novo ponto de vista no entendimento da real mortalidade da pandemia do novo coronavírus, dado o cenário político conturbado, onde os dados divulgados sobre a pandemia oficialmente não são confiáveis (ou estão possivelmente sendo censurados).

Número de mortes por causas naturais no Brasil

Atenção!
Apesar de atualizarmos os dados com frequência, eles ainda estão sujeitos ao atraso dos cartórios. Por via de regra, quanto mais recente o dia maior o atraso. Clique aqui para mais detalhes. x

O que o gráfico nos diz?

O gráfico acima traz a evolução do número de mortes por causas naturais no Brasil, reportadas diariamente pelos estados no Portal da Transparência.

Todos os tipos de óbitos decorrentes de doença - inclusive problemas respiratórios, com diagnósticos confirmados ou não de Covid-19 - são considerados mortes por causa natural.

A primeira morte oficialmente confirmada por Covid-19 foi anunciada no Brasil em 17 de março de 2020. A partir de abril, vemos no gráfico um crescimento muito rápido no reporte de mortes por causas naturais, aumentando em mais de 25% o volume reportado no ano anterior.

Quantas mortes por Covid-19 de fato temos no Brasil?

A melhor resposta é: não sabemos.

O número oficial de mortes por Covid-19 no Brasil vinha sendo divulgado diariamente pelo Ministério da Saúde, porém com a ressalva de não incorporar possíveis mortes não diagnosticadas por testes, ou cujos resultados ainda não saíram. Isso resultaria em subnotificação.

Se a demora no diagnóstico e a falta de testes já tornavam os números oficiais não confiáveis, as recentes intervenções do governo federal para ocultar os dados aumentou ainda mais a desconfiança.

O problema das notificações não confiáveis

Se por um lado, diante dos impactos da pandemia na economia e pressão da sociedade, o governo pode ter incentivos para subnotificar as mortes e pintar um cenário mais tranquilo, por outro também é possível que ocorram supernotificações pontuais.

Imagine um cenário, por exemplo, em que gestores de saúde tenham a intenção de reportar mais mortes por Covid-19 para pleitear um aumento de verbas para determinada cidade ou região.

Por que observar o total de mortes por causas naturais?

Uma maneira que outros países encontraram para contornar esses problemas nos dados e medir o impacto da doença é monitorar as mortes de forma mais abrangente, minimizando diagnósticos errôneos e incentivos político-econômicos na atribuição de cada morte.

Sendo assim, para avaliar o real impacto do coronavírus sobre a mortalidade no nosso país, é importante avaliar o excesso de mortalidade, ou seja, o número de mortes acima da média histórica. Ainda que somente das mortes por causas naturais.

O que o crescimento de mortes por causas naturais pode significar?

Mortes por causas naturais são as causas mais frequentes de mortalidade no Brasil. São todas aquelas decorrentes de doenças e problemas de saúde que fazem o corpo humano parar de funcionar. Mortes por causas externas à saúde, como assassinatos, suicídios e acidentes, não entram na conta da mortalidade natural.

A comparação do número de mortes por causas naturais entre este ano e o ano passado revela que estão morrendo mais pessoas por dia no Brasil.

Nos piores dias da crise do Covid-19, a mortalidade chega a aumentar em quase 25% no país.

No estados mais impactados, como Amazonas, Pará, Pernambuco, Ceará e Rio de Janeiro, a mortalidade chega quase triplicar. Experimente selecionar estes estados no gráfico.

Todas essas mortes a mais são resultado da Covid-19? É impossível afirmar que sim, mas é razoável presumir. Porque, de um ano para outro, em geral há pouca variação entre as mortes – a não ser que ocorra um fator novo provocando alta letalidade, como é o caso da Covid-19.

Esse aumento de mortes, independentemente do número de testes disponíveis, já é um sinal de alerta e levou muitos países a tomarem medidas drásticas de fechamento de fronteiras e de restrições de circulação de pessoas – algo, nessa escala, inédito na história recente do planeta.

Os dados do gráfico são confiáveis? São atualizados? De onde vêm?

Os dados exibidos no gráfico de mortalidade por causas naturais são extraídos do Portal de Transparência do Registro Civil e contabilizam as declarações de óbito emitidas por cartórios de todo o país.

Essas informações são reportadas com algum atraso. Por isso, para quanto mais distante no passado em relação ao dia de hoje, mais precisos são os dados, já que em alguns casos a informação pode levar mais de um mês para ser atualizada. Porém, com 14 dias de atraso já temos uma ideia razoável do que está ocorrendo no volume de mortes reportadas.

De acordo com o portal, em caso de óbito, "a família tem até 24 horas após o falecimento para registrar o óbito em cartório que, por sua vez, tem até cinco dias para efetuar o registro de óbito, e depois até oito dias para enviar o ato feito à Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), que atualiza esta plataforma". Mas, na prática, sabemos que esses números podem demorar mais que isso para se tornarem públicos. Por isso, tenha em mente que o passado recente apresentado ainda pode piorar um pouco.

Infelizmente, faltam dados mais antigos para elaborar comparações históricas mais longas – não há sequer dados confiáveis para todo o ano de 2018. A comparação possível, portanto, é apenas entre os anos de 2019 e 2020, e alguns meses de 2018.

Os dados estão sendo mostrados em formato de média móvel de 7 dias. Essa é uma técnica muito utilizada para minimizar os efeitos de fins de semana, de maneira a não haver comparação distorcida entre dados de um domingo com um de uma segunda-feira.

Além disso, estamos comparando em dias corridos de um ano. Como 2020 é ano bissexto, 29 de fevereiro de 2020 está sendo comparado com 1º de março de 2019, e assim por diante. Naturalmente isso não é um problema, pois a natureza não segue o calendário gregoriano!

Mais informações e outras fontes

As informações de mortalidade por causas naturais são confusas, mas nos empenhamos para trazer essa visibilidade da melhor maneira que conseguimos.

Abaixo, recomendo alguns links e contatos de pessoas que estão fazendo um trabalho interessante.

Caso tenha dúvidas, sugestões e outras fontes interessantes para compartilhar, você me encontra no Twitter.

Redatora e assessoria de comunicação Isabella Paschuini Bruno Aragaki